1º lugar - Acadêmica Conceição Fenille Molinaro

 

Conto - Carta de Amor

 

Luísa era uma dessas moças, que, com o passar da idade, tornara-se sonhadora e solitária. Tinha por companhia Júlio César, seu gato de estimação.

Há muito desejava um namorado ou alguém com quem pudesse dividir a enorme casa que seus pais haviam lhe deixado como herança. A casa, que ficava no final de uma rua  de terra, tinha um pequeno jardim. Local preferido de Luísa. Ela adorava mexer na terra e conversar com as poucas pessoas que por ali passavam, a maioria delas, vendedores de quinquilharias, entregadores de compras e pedintes.

Vivia uma vidinha sem surpresas, sem alegria... As poucas amigas, com quem andava, estavam casadas, cuidando dos filhos, maridos, galinhas e, muitas vezes, da vida alheia.

Acostumara-se a vasculhar, diariamente, a caixa de correio. Muitas vezes rasgava, sem ler, os inúmeros panfletos de supermercados, propagandas de eletrodomésticos, anúncios de liquidações e outros... Nada de interessante.

Um belo dia, ao retirar a papelada da caixa, deu de cara com um envelope branquinho, sem destinatário, sem remetente, sem nada que o identificasse. Intrigada, abriu o envelope... Não era anúncio de cartomante, nem corrente de oração. Já recebera, anteriormente, este tipo de publicação em envelopes parecidos. Era uma carta, uma carta de amor!

Luísa correu para dentro da casa e saltou sobre o velho sofá adamascado, onde Júlio César dormia o sono alerta dos gatos. O bichano, se não saltasse ligeiro, teria sido esmagado pelos quase 90 quilos de sua dona.

"Minha querida flor de magnólia, desde que a vi penso em você todos os dias...

A cada dia que passa, aumenta minha admiração e o meu amor por você.

O meu mundo tornou-se mais colorido, mais vibrante, mais emocionante, depois que lhe encontrei. Você transformou a minha vida..."

Luísa, ainda com as mãos tremulas de emoção, tentava descobrir quem seria esse admirador secreto. Quem seria esse apaixonado. Quem? Quem?

Saboreando cada palavra, suspirando a cada vírgula, a cada ponto, continuou lendo sem pressa.

"Quando penso em você, sinto o perfume das flores do seu jardim..."

Estava tão enlevada com as doces palavras da carta que nem percebeu as palmas que vinham do portão...

– Ei, dona! Ei, dona! – gritava insistentemente um moleque que, vez por outra, fazia uns biscates entregando propaganda do Forró do Capeta.

Júlio César, curioso com as palmas e gritaria, subiu na janela e pôs-se a miar insistentemente.

– Mas que bicho mordeu esse gato? Será que viu alguma ratazana rondando o jardim? – resmungou Luísa indo até a janela.

– Ei, dona! A senhora não encontrou um envelope na sua caixa de correio? – perguntou o moleque.

Um filme passou pela cabeça de Luísa... Como assim? Alguém estava atrás da sua carta de amor? Será que o remetente queria se certificar que ela havia recebido a carta? Será que era uma brincadeira? Será? Será? Eram tantos serás se engalfinhando dentro da sua cabeça, que ela resolveu perguntar:

– Por que você quer saber?

– É que o João, aquele moço do cabelo vermelho, pediu-me para colocar uma carta na caixa do correio de uma dona e eu errei o endereço... A casa fica na rua de baixo... Eu me confundi e coloquei na rua de cima. O homem tá numa brabeza que só vendo! A senhora pode me entregar a carta?

– Que carta? Eu não sei de carta nenhuma... Olhe aí na caixa, se encontrar pode pegar. – dito isso, Luísa fechou, com toda força, a janela. Se o gato não é ligeiro, tinha perdido o rabo.

– Júlio César, nem um miado sobre essa carta! Imagine se eu vou entregar a única carta de amor que recebi em toda a minha vida... O homem do cabelo vermelho que escreva outra. Esta é minha para sempre! – disse ela suspirando.

Luísa dobrou a carta, colocou dentro do porta seios e foi para a cozinha preparar o leite de Júlio César.

 

2º lugar - Acadêmica Maria Marlene Nascimento Teixeira Pinto

 

Conto - A carta de amor!

 

Um dia, acordei mais cedo do que costume e sentei-me no sofá da sala, para ler um pouco. Ao pegar um livro da estante, despenca de uma das páginas um envelope sobrescrito com uma letra desenhada, endereçada para alguém... Coraçõezinhos coloridos em demasia! Incrível! Era uma carta de amor, escrita para alguém muito especial para mim!

Lembro-me, como se fosse hoje, tomo-a entre as mãos, e começo a lê-la. Era um escrito do meu tempo de adolescente, endereçada a um garoto da minha sala de aula, pedindo-lhe mil desculpas por um fato ocorrido, na escola, onde cursávamos a escola primária (hoje ensino fundamental). E confessando o meu amor por ele!

Naquele tempo, ele estava, na minha classe, e se sentava na carteira da frente. Garoto corajoso. Acreditem, após aula, cercou-me no corredor e começou a gaguejar. O que era mais engraçado, ele estava sem os dentes da frente e as palavras saíam como se fossem um assobio. Saíam, em profusão, pela janelinha escancarada. Não contente com a demonstração desastrosa do seu amor, ajoelhou-se aos meus pés, pedindo-me em namoro. Coitado! Não sabia o que estava para acontecer! Bem, eu não tinha um coelhinho da Mônica, naquele tempo, mas podia contar com meus punhos.

Eu não pensei duas vezes e comecei a socá-lo, empurrando-o escada abaixo. Seus colegas começaram a provocá-lo. Saí correndo, com medo que ele pudesse revidar.

Mas, algo inesperado aconteceu. Dei de cara com ele de novo, no fim do corredor, caímos, no chão, abraçados e o susto foi selado por um beijo desastroso ( argh!).

Levantei-me  indignada e pronta para estapeá-lo, quando perdi o equilíbrio e caí nos seus braços e nos seus abraços! Fiquei possessa!

Alguém nos ajudou a levantar ao som de vozes que berravam:

_ De novo! Beija! Soca! Mata!

Envergonhados, fomos para a classe e nunca mais pude olhar na cara dele. Até de classe mudei, pois não queria mais encontrá-lo e correr o risco de nos estapearmos ou selarmos o encontro. Dou uma gargalhada ao lembrar-me do meu primeiro amor desdentado e do meu primeiro beijo desastroso.

Hoje, sorrio, cada vez que olho para o meu marido, que um dia apareceu na minha frente, banguela e coberto de juras de amor! 

Releio, com carinho, sempre, a carta de amor que um dia lhe escrevi, já adolescente e apaixonada, confessando o meu amor e me desculpando pelo ocorrido na infância.

Graças a Deus, a Fada do dente ( filme - alguém se lembra?) estava de plantão! Fico feliz ao ver seus dentes brilhando e perfilados! E tê-lo  reencontrado no Curso Médio. Bem, daí a história foi outra! Nada de socos, nada de pontapés...

 

3º lugar - Acadêmica Beatriz de Oliveira Costa Cruz

 

Conto - O homem da letra bonita

Assim que abriu a porta, Cristina viu o envelope no chão. Abaixou-se para pegá-lo. Impossível não reconhecer a letra de Guilherme, nem precisava olhar o remetente. Andando pra lá e pra cá, ela balançava a missiva como se estivesse a se abanar. Depois daquela briga esquisita da véspera, o que será que ele tinha a dizer? Que sentia ciúmes do ex, há muito “morto” e “enterrado”?  Aborrecida, depositou o envelope sobre o console, ao lado das chaves. Melhor tomar uma chuveirada para esfriar a cabeça.

Depois, sentindo-se mais leve, pensou em preparar um prato de salada, mas o envelope ali no móvel chamava sua atenção e atiçava a curiosidade. Rasgou a lateral, puxou o papel e sentou-se para ler. Guilherme gostava de escrever com sua caneta prateada, de estimação, relíquia do saudoso pai. Dizia que assim as mensagens ficavam mais calorosas. E ficavam mesmo, Cristina sabia, já tivera a oportunidade de comprovar inúmeras vezes, além do mais, com aquela letra firme e tão bonita. Nenhuma data significativa era esquecida por ele. Junto com o buquê, fosse de rosas, crisântemos ou florzinhas do campo, sempre vinha um cartão repleto de palavras e frases carinhosas. E nas ocasiões mais importantes o bilhete se estendia, transformando-se em carta. Sempre uma carta de amor! Naquele dia não foi diferente, Guilherme logo de início pedia desculpas pelo desastrado acontecido, na verdade causado por problemas no trabalho. Não queria, de jeito nenhum, que aquilo atrapalhasse o relacionamento deles que se amavam tanto e se davam tão bem. Aliás, já estava mesmo na hora de pensarem seriamente em viver juntos. E patati, patatá, amorzinho pra cá, beijinho e beijões pra lá. Minha querida, amor da minha vida... E, para terminar, a pergunta que tocou fundo o coração da namorada: Que tal começarmos a preparar o nosso casamento?

Dúvidas dissipadas, olhos rasos d´água, Cristina correu atrás do celular. Queria dar a resposta, dizer o sim imediatamente e de viva voz! Ao contrário de Guilherme, ela achava muito difícil escrever cartas, qualquer uma, até mesmo pelo computador. Ainda mais uma carta de amor.